3 de junho de 2009
Por alguns minutos…
Decolamos.
Pelas próximas doze horas meu destino estará nas mãos de alguém que não conheço.
Sorrisos metálicos, gestos exaustivamente ensaiados e sincronizados. Um balé medieval de salamaleques e gentilezas.
Durante alguns minutos me deixo levar pelo burburinho dos que entraram e ainda conversam ansiosos com a expectativa da chegada. Bolsas, jaquetas, ternos impecáveis e seus vincos perfeitos relaxam agora em suas cadeiras observando o balé dos jovens tripulantes.
Tecnologia em suas inimagináveis combinações comanda de forma invisível o espetáculo. Tudo que temos de mais avançado como civilização está resumido nesse breve espaço metálico. O que conseguimos, o que avançamos e conquistamos concatenamos em uma aerodinâmica e alada forma prateada.
Cinqüenta minutos…. um breve espaço de tempo, mas foi o limite para o adolescente ao meu lado comentar algo que não entendi direito, prestando melhor atenção descubro que vai visitar o pai que o aguarda para conhecer a cidade onde escolheu para trabalhar. Fico imaginando o quanto vai conhecer de novas e infindáveis refeições e no fim vai sentir saudades do Mcdonalds da esquina de casa.
Duas horas…. ligo o monitor a minha frente, um bobo vídeo institucional, alguns avisos…. Desisto. Ainda não estou entediado o suficiente para consumir isso.
Duas horas e trinta minutos…. uma pequena turbulência…. avisos, luzes, comandos. Em minha coreografia imaginária o balé dos salamaleques parece ainda mais formal, carrinhos, bandejas, copos e garrafas habilmente gerenciados parecem que jamais vão assumir suas iradas vertentes prosopopeicas.
Turbulência….
As luzes se apagam…. sinto frio.
As bocas se contorcem, as palavras são confusas, os gritos são claros.
Sei o que acontece e sinto que não esperava um destino tão estúpido.
Não vejo um filme da minha vida, vejo a inimaginável dor do pai que nunca vai abraçar seu filho no aeroporto.
Vejo a jovem de cabelos cacheados que jamais vai passear pelas largas avenidas iluminadas. O cavalheiro de terno de vinco perfeito que vai chegar definitivamente atrasado à reunião, os que vão perder a conexão, os que choram e outros tão violentados pela imbecilidade do fato que aceitam como eu meu inexorável destino.
O infinito azul marinho…. chuva, frio.
Me falta o ar, não há poesia… sinto falta das estrelas.
criado por vagner.schuler
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